De olhos fechados, o mar não se ouvia.

A música em fundo, o tempo parado

Quase envelheceu, definhou

Nas nossas horas, a nossa indiferença,

Culpando-me do cansaço, da tortura da espera.

Faz-me entardecer antes do pôr-do-sol,

Quando a chama se extingue, molhando a terra ardida,

O amor que já não lembra,

Do tempo que passou, que queimou.

E nada restou, cegando-me,

Por me atrever saber o que ficara,

Sem choro nem mágoa,

Por nada, uma folha

Rodopia na penumbra

Incandescente sobre a luz, pecadora,

Na lua, onde as cinzas descansam

Na minha mão, húmida e salgada,

Tremendo, cansada,

Sem eira onde morrer,

Na vertigem da morte,

Tão perto

E a vida, marcando passo

A toda a hora.

 

Corpos desencontrados,

Pequenos mundos que não se falam,

A realidade desenrolando-se de forma opaca

Imune a qualquer vontade,

Diluindo-se naturalmente em melancolia.

 

Amanhã fazes o mesmo

Mas o silêncio não abafa as diferenças, as repetições, os silêncios

Prolongados no tempo ao limite do possível,

Esperando revelações que não acontecem,

Solavancos na letargia,

Na banalidade trágica da vida.

O desassossego feito solidão.

 

A luz dela não se apaga.

 

E eu, o tempo todo à espera dela,

Como um barco naufragado às portas da cidade,

Inútil, cedendo aos fantasmas da mortalidade,

Impuro, escondido na luz que a neve tem.

 

Apaga a luz.

 

Hoje já não posso ser assim.

Demasiado avesso à melancolia,

Nunca dizer nunca,

Sentir o que de nós se espera.

 

Outras memórias vêm à tona,

Perdidas em movimentos redundantes

Resplandecendo na obscuridade intensa:

 

O jazz polido da tua voz,

Uma comédia de algo que se intromete e arrebata

A noite ardendo só, deflagrando risos

Celebrando euforia.

 

Magnífica respiração ofegante,

A invejável simplicidade da respiração

Cruzar sopros inconciliáveis.

 

As diferenças dissimuladas.

 

A insistente atenção a nada mais que a estrada.

 

Hoje, pela noite, passam apenas uivos de revolta,

Poesia abandonada

Vadiando como música excelsa na expressão dorida da escrita,

Decantando a depressão como redenção perversa,

A tinta feita ácido ecoando como badaladas.

 

Não sei se posso ser assim

Mesmo amanhã quando acordar exactamente igual.

 

“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão”

in Um Adeus Português

Alexandre O’Neill


 

 

A noite que foge em silêncio encontra abrigo em ti

Aninhada nas ténues esperanças de regressar

Ao mundo das vozes e mentiras que teimo em não ignorar

Neste dia que nunca acabou

Mesmo quando tudo havia terminado ao arrepio do acordado

O sabor da laranja amarga que trazes nos lábios

Recorda a acidez que havíamos esquecido

De cada vez que falávamos

De nós

No  calor das intermináveis noites de Verão

Que já não era o mesmo

Porque mais intenso

Sem risos de água corrente

Esquecida a limpidez dos sentimentos

A sinceridade das palavras fulgurantes inventadas

Preenchendo silêncios e venenos sem antídoto

Nesta separação que inventámos e desejámos

Apagando os dias transformados em noites

Adivinhando as tuas horas e as minhas

Debruçados na varanda dos dois lados da rua

Olhando um para o outro.

 

Um corpo caótico que se devora a si próprio

Numa descida arrojada e temente às profundezas

Abismos impossíveis sem tempo.

Odeias-te.

 

Nos lugares ermos ou desocupados

Até nas piores avenidas

Em deambulações estridentes

A tua encenação intermitente

Uma farsa ácida de volatibilidade inebriante

Agitando águas dos quotidianos sombrios.

Odeio-te.

 

Dois corpos à deriva

Expatriados do mundo

Sugando-se

Nas peculiaridades da essência

Num despertar incandescente

Todos os dias destes dias

Rindo e praguejando

Cinismos musicais soando de forma bizarra.

Amo-te, não sei porquê.

 

Acorda-me, não te esqueças!

Não me esqueças.

 

Calado como ausente,

Ouvindo, de longe, a voz,

Os olhos cerrando-se com a boca,

Dormente, adormecendo,

Submergindo-se com as coisas da alma

No silêncio que oiço distante,

Escondido nas brumas torpes e poluídas do horizonte citadino,

Confuso mas simples e subtil

como noites de lua cheia entre recortes de betão,

Morrendo e vivendo nas palavras que se perdem e inventam

Quando chamo por alguém na multidão.

 

É estranha e disforme a forma como sobe,

Nas alturas, nesta altura,

O calor...

Sem brisa nem prenúncio,

De chuva,

De nuvens.

Não me lembro delas nem da sombra do mar.

Delas, a minha no cais,

Picada por gaivotas,

Riscada por barcos laranja,

De um lado para o outro,

Com gente dentro, muitas, juntas,

Em silêncio.

Nestas alturas,

Verão em Lisboa,

O melhor seria não estar,

Aqui, mas noutro lugar,

Onde odiaria estar, senão aqui.

Não penso. Cansa. Não é altura.

Não é estação.

A dos barcos, de mármore fresco, só, sem alma.

As pessoas, a multidão com calor, afogueando,

Atravessando a cidade,

De outra para esta, margem,

Em silêncio, sem brilho, com reflexo.

-“Está na altura!” alguém diz certamente,

de forma estranha e disforme,

assim como se movimentam as pessoas,

e se cruzam,

como sombras no cais,

picadas por gaivotas e riscadas por barcos,

na cidade, sem alturas para falar, sem alturas para se ver.

Está calor e não é altura para pensar.

 

Procuram as vozes em surdina, na lentidão da luz,

em madeira rara, esquecidas e quentes, descarnada,

amaciando, arrepiando o veludo azul,

incandescente, de intensidade crepuscular,

inteiramente inventado na monção de verão,

percorrendo e envolvendo as mãos, nas tuas, longe,

querendo, temendo, ansiando, antecipando,

rasgando a madrugada e fios de prata caídos sem glória, sem brilho,

volteando, toureando demónios ao amanhecer,

perseguidos, eles e nós, sem nada em comum,

os mesmos medos, debaixo da almofada, quente e suada,

gritando mais alto que a fita, com gravilha na imagem,

invejando as letras e a escrita, a preto, em papel brilhante,

melhor que o teu, rascunho de peça, de dança rangendo no soalho,

de tinta escorrendo, alagando, mortificando-se,

temendo o afogamento em ti, imprevisível, inevitável, insaciável,

um insolente urro em plenos pulmões,

sou eu, mostrando-te o que sei, sobejando, explodindo,

a fascinação, a excitação digna de exibição, carnal, erótica, diferente,

cumplicidades de ser tão urbano, embriagado pela criação,

movimentos e contemplação, viver como aparições,

a busca silenciosa nas sombras do mar, onde o sol não tem lugar,

os fugazes desenhos, os amores tristes e enebriados,

a mentira do sonho que acaba, mesmo ali, na rua de baixo,

tão perto como o mal que nos vigia, que nos atormenta, rodeia,

estremecendo num marulhar distante do fim do mundo,

temendo o fim da polifonia, devoradora, insaciável,

o esquecimento, a cegueira, a mudez da voz que há em ti.

 

Descobri que te amava num qualquer dia,

Num jardim de ondas

A sós com a nossa visão,

Procurando as palavras que não criam raízes, não escavam feridas,

Pressentindo a nudez acústica da voz,

Nas palavras saltando esquinas de luz,

Hesitando sobre o futuro de descoberta do outro,

O irremediável desencadeando antecipações.

 

Nas águas turbulentas das emoções,

Imaginação faz-nos esconder atrás das coisas,

Da presença de espírito para partilhar os riscos do desequilíbrio,

Os estragos em águas turvas,

A insolência, ironia, renúncia,

A excitação desconcertante de nos deixarmos assombrar,

Observando o movimento do tempo em surdina,

Desvirginando em segredo a rebeldia embalada pela música,

A paixão atravessando a complacência com risos pirotécnicos,

Cada dia como o anterior, sempre,

Sempre que sejamos nós,

Juntos, como água.

 

aquelas pequenas coisas

que no teu dia de sol voam

tão depressa falam suavemente

em braços descobertos e calor

à noite junto ao rio

descobrem-se e riem

como ondas molhando o cais

como  ondas do teu cabelo

como ondas no ar

levando o teu som ao meu mar

aqueles dias de verão

num inverno interminável

num momento de vários instantes

minutos contados ao segundo

descendo a avenida

quase voando

quase cantando

quando chorando

molhando a cara

salpicando o dia

como ondas na beira mar

como ondas e espuma nos pés

o teu corpo feito em curvas

sentidos ascendentes e carnais

sem resistências

eu

a mim próprio

a ti

numa onda de excitação

numa vaga de vontade

numa maré de bem querer

num mar de sentidos

num oceano maior que nós

numa lágrima não contida

escutando

tocando

mergulhando

emergindo

acariciando

como um onda.

 

No rio,

A madeira apodrecia ao sabor das vagas

sem queixumes ou alaridos de nota,

presa às margens por cordas que já não estavam.

O barco jazia sozinho,

descobrindo-se ao ritmo das marés,

esquecido, esquecendo-se.

 

Chovia e o frio era o mesmo,

o arrepio de Janeiro que não cessava,

fustigando a varanda, batendo furiosamente na janela,

os algerozes lançando esguichos de água e folhas,

inconsoláveis precipitando-se no passeio.

 

 

Em mim,

no desespero,

perdi os sentidos gritando,

por não ter movimento nem autonomia,

por ser em mim a minha prisão,

o meu carcereiro escondendo a luz,

fechando as portas.

Os passos na escada,

distantes, cada vez mais,

aliviados e temerosamente mudos.

 

Calaram-se as vozes, receando

a tempestade próxima que se avizinhava,

o céu, escuro e ruidoso, ameaçando cair sobre nós,

sobre os que desprezam quem é livre,

sobre os que não sendo, desprezam poder ser.

 

Não se ouviram mais palavras.

 

Na avenida sobre o mar,

os prédios ofuscando a manhã,

escondendo-se nos vidros, o reflexo.

pintando o rio perdido nas esquinas,

ondulando nas paredes em pedra,

dizendo-me para seguir,

para continuar a caminhar.

 

Ao longe o barco definha nas águas turvas do tempo,

como eu,

escondido atrás dos reflexos, intransigente,

esquecendo-me que ainda o vejo.

 

Fazia a tarde, horas a mais,

Escapando-se pelos dedos, a areia presa ao teu rasto,

Em linha com o céu, sem estrelas, desaparecidas,

Numa calmaria diluída em maresia e espuma,

Bocejando, perdido à deriva no pontão,

Deixando o último sol aquecer o ar.

De olhos fechados, ouvindo os insectos no vazio,

Desconhecemos juntos o fim do dia,

Nada perguntando e consentindo,

Soltando fingimento, sorrindo,

Aquecendo, sem chama, a alma já fria.

 

O fulcro da harmonia  está em cada miligrama de música,

Num ruído telefónico desde Buenos Aires

Ou na inércia aflitiva de uma gota suspensa

Movendo-se como o Inverno,

Errática, cristalina e suja.

 

Estranho é o mundo da solidão habitada,

Completo de fantasmas escondidos,

Esperando cumprir tarefas

Em tempo lento, esboroando-se rarefeito,

Perto da alucinação.

 

Esperava algo mais explícito,

Existir para sempre sem mostrar o que está escondido

Como um pesadelo de loucos

Numa enervada disputa pelo nome das coisas

Coleccionando rasuras, resíduos e ruídos de melodias lunares.

 

E o tempo demorava a revelar-se para nós,

Que nos olhávamos haviam não sei quantas horas,

Lutando e vacilando pela primeira desistência e derrota,

Pelo saque dos sentimentos que teimávamos em defender deste cerco.

 

Chovia copiosamente e era Verão em Buenos Aires.

Outros tempos os nossos.

 

Soltas um suspiro pela minha dor,

uma oração murmurada e ausente
em doce canto,

o adeus sem a amargura das palavras,
sem gratidão pelas almas que choram,

as nossas,

a minha, sem te esqueça,

sem um só minuto que não te adore,

porque as almas que se amam não se esquecem,

não se ausentam, não dizem adeus.

A eternidade não é o instante de um suspiro,

passa o tempo

e a vida segue de outras formas,

palpitante

exuberante como o sangue e a chama

que existe sem ti.

Mas permaneces,

muito para além das horas.
 

*

No silêncio, enfim, debruça-se sobre o corpo inerte e beija-lhe a testa.
As mãos enroladas num pano, limpam-se de culpas, lavam a consciência.
Veste o casaco, demoradamente, e abandona a arma em descanso sobre a mesa, antes de sair pela porta já aberta.
Sorriu. Guardei-a só para mim.

 

amanhece

a cidade dorme e desperta

aos poucos, primeiros, os silêncios e suspiros da manhã

nas margens do inverno desfeito suavemente

passos ecoam e desgastam as esquinas onde curvam os dias sempre iguais,

as pessoas, as nossas, das mesmas ruas e minaretes enclausurados

 

(pausa)

 

lágrimas

gotas confundem-se em pólen libertado no vento

repousando em tapetes e relva escura, alcatrão

sepultando a última terra

a que não respira

que envolve em dura prisão eterna

libertadora

 

- onde estou?

 

(ao fundo)

 

- chorando a última gota de paz...

Escrito em Madrid, no dia 11 de Março de 2004. Para quem insiste em viver.



 

Só à primeira vista estranha,

A lucidez demente de um elogio fúnebre,

Ecoando na nudez do espaço vazio

Do meu corpo desamparado,

Onde tudo o resto é silêncio

 

A dor arpoada no peito,

Um Dó menor do mundo que acaba,

Esperando um pôr do sol eterno que incendeie por dentro.

 

É um acto de fé aceitar a morte,

Como que uma redenção perversa à crueldade:

De desaparecer num dia como este, sem brilho, sem luz,

Sem nada para fazer, admirando a tristeza do verão,

As águas estivais descendo pela janela,

Acordando o inverno.

 

Adormecer,

Sem a ansiedade de ser poeta.


 

O vento quente dos suspiros,

Queimava os olhos, amedrontados

Diante a esperança, jazida, cheirando a óleo,

Sabendo a gritos de coragem,

Esquecidos num abraço de uma vida.

Em ruínas, corações esmagados,

Perdidos num beijo de despedida.

Ouviam-se mais ...

E no cais, amontoavam-se os navios,

Tristes, pesados, podres,

Como seria o resto do tempo,

Para lá da barra, bem longe da vista,

Onde fraqueza que não se evita,

E as almas escurecem e definham,

no retorno compulsivo da vertigem da terra,

perdida das mãos e desfeita no mar.

Ficámos para trás... a um horizonte de distância.


 

A caligrafia estampada em folhas encarquilhadas,

Riscando o mar como cal desfeita na parede esboroada,

Abrindo cicatrizes, salivando,

É poesia que não se contende numa prosa de dias.

 

Num riso cortado, sem pressa nem lâmina,

Perdendo sangue que alastra e escorre

no esplendor dormente do meio dia de Marraquexe

Que permanece e sucumbe ao fogo da tarde

Escondendo, comendo a tinta do papel.

 

A sangria tempestuosa e ribombante dos teus passos,

Num furor desonesto e erótico,

Correndo sem escutar o eco da medina,

Deixando-me ao escuro sono da solidão,

Decepando sem misericórdia as cores que nos cobriam,

 

Mais uma vez ofuscado pela imensa luz transbordante do deserto...

 

Ao fundo da rua, desde sempre,

como uma promessa


 

“(..) és o corpo a que voltar

será talvez como morrer no mar”

Gastão Cruz, “Repercussão”

 

Fogem as sombras e os risos no estio interminável do sul

O suor e as curvas que luz desenha

Em finas e intermitentes linhas de horizonte

O mar que se adivinha na aridez de palavras

No reflexo dos lábios humedecidos outra vez

O testemunho silencioso de um tronco solitário

Marcando a diferença da ausência dela

De súbito avistada como um beijo roubado

E gralhas rasando as rochas e as searas

Olhos desamparados no rompante de botões saltando

Pele sobre pele

As marcas da terra no corpo que descansa atordoado

O vento que toca como água

Lavando o embaraço dos calores

Escorrendo e logo secando

Na estepe alentejana.


 

Um pouco por todo o lado

Um catálogo suculento de ácidos e lúcidos

De mau sexo e boa bebida

Onde os sóbrios ocultam a perplexibilidade

Dos risos embebidos em pequenos instantes

Cheirando rastos de estima

Crescendo da escuridão para luz

A memória dos dias e o pavor da noite

Ouvindo vozes murmuradas de amores em luz difusa

Rugindo puras como a mortalidade...

 

“(...) Há em cada instante uma noite sacrificada ao pavor e à alegria (...)”

in Lugar de Herberto Hélder


 

Move-se em café arrefecido

Uma certa tristeza de ser urbano,

Em cativeiro,

Um vento fugitivo, em vermelho vivo,

Sem o sabor da manhã ,

Apenas com a luz que atravessa o ar,

Morta há muito tempo, no abismo

Das tardes de outono sem cor,

Invernos de silêncio à noite.

 

E o café evapora-se sem deixar cheiro

Consumindo-se no escuro cinzento e sujo.

Onde não chove,

O céu, espelho da cidade que não termina

Chora água de ferro, dura,

Apenas transparente na minha mão

Estendida, saindo das arcadas.


 

Ao cair da tarde,

A mudança de estação,

Reflecte-se na cidade,

Percorrendo escadarias,

Agitando a folhagem e

E os gemidos das árvores,

Na luz e no ar,

Crescendo como um rio,

Detendo-se por algum tempo,

Nos primeiros passos de uma risada prestes a começar,

Observando,

Que numa fina linha poderá estar todo o mundo,

Que não se contém nem se domina,

Que cresce solto e determinado,

De forma subjectiva como a análise de uma paixão.

E noite desperta, fresca,

Quando finalmente dança o tempo no mundo.

 

 

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